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» Direito Penal
Neoliberalismo, Urbanização Desordenada e Miséria = Criminalidade e Violência
LUIZ FLÁVIO GOMES
Doutor em Direito penal pela Faculdade de Direito da Universidade Complutense de
Madri, Mestre em Direito penal pela USP, Consultor e Parecerista e Diretor-Presidente
da TV Educativa IELF (1ª TV Jurídica da América Latina com cursos ao vivo em SP e
transmissão em tempo real para todo país - www.ielf.com.br).
A morte de Ronald Reagan suscitou, nos últimos dias, muitos balanços
da década de 80, que foi marcante no curso da história. Para os latinoamericanos,
desde logo, foi uma década perdida (em termos de crescimento econômico, emprego,
estabilização social etc.). Na economia ganhou força o modelo liberal clássico
(neoliberal), que nada mais significa que o restabelecimento do provecto "laissez-faire,
laissez-passer" (deixa-se fazer, deixa-se passar, deixa-se a economia seguir por si só,
sem a intervenção do Estado, sem regulamentação, posto que com seu crescimento todos
acabam sendo beneficiados). Os grandes responsáveis por essa visão neoliberal do mundo
sócio-econômico foram Reagan (1981-1989) e Margaret Thatcher (1979-1990).
Dentre as características mais importantes dessa política econômica
liberal destacam-se o individualismo, o consumismo, alta taxa de desemprego, forte
exclusão social, marginalização de grande parcela da população, ausência de política
públicas na área da educação, saúde, lazer etc. Parece não haver dúvida que todos
esses fatores influenciam decisivamente na criminalidade urbana.
A insegurança no Brasil e na América Latina, desde a década de 80,
vem aumentando assustadoramente. Em alguns momentos nota-se alguma reação, mas como
não queremos enxergar a realidade, nada vemos. Na vida, maximizar os saberes é
fundamental, mas nosso dever primeiro é sobretudo mapear e investir
na nossa ignorância.
O primeiro relatório oficial brasileiro sobre desenvolvimento
sustentável elaborado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
fez um balanço do país na década de 90 e, dentre outras constatações, evidenciou
o aumentou da violência no nosso país. De 1992 a 1999 os homicídios passaram
de 19,2 para cada 100 mil habitantes para 26,18 (quase 40% de aumento). Chegamos
em 2004 a 27 homicídios. Considerando-se que a média mundial é de 5 homicídios
para cada 100 mil habitantes, vê-se que o Brasil está mais de cinco vezes acima
da média do planeta. As grandes regiões metropolitanas lideram os índices de
violência: Pernambuco 55,63; Rio de Janeiro 52,54; Vitória (ES), 51,87; São
Paulo 44,00. Situação peculiar é ocupada por Roraima: 57,69. Mas a violência
aí se deve a peculiaridades locais (zona de fronteira, grandes conflitos
por terras etc.).
Durante muitos anos acreditou-se na relação (quase direta) entre
a miséria e a violência. Está se tornando, entretanto, cada vez mais evidente
que a relação é outra: urbanização desordenada + miséria + desemprego etc.,
sim, são componentes (fatores) que determinam a violência (cf. Cardia e Schiffer,
em www.nev.prp.usp.br; Sérgio Adorno, Crime e Violência, em Jornal de
Psicologia, abri/jun 2002, p. 07-08). Se cigarro é causador de câncer, obesidade
é geradora de enfartos, urbanização desordenada + miséria (como é o caso de
Recife, Rio de Janeiro, Vitória e São Paulo) conduz quase que inevitavelmente
ao crime (à violência).
Os Estados brasileiros mais pobres (Maranhão, Piauí) apresentam
os mais baixos índices de violência: 4,85 mortos para cada 100 habitantes. Do mesmo
modo, os países africanos mais pobres ostentam baixíssimos índices de violência
(menos de 3 homicídios por 100 habitantes).
Isso comprova que a miséria, por si só, não é fator determinante
do crime. Mas se aliada à urbanização desordenada (condições de vida precárias, falta
de policiamento, falta de segurança, de saúde, de educação, de lazer, desemprego,
falta de expectativa na vida etc.), que se deve à quase total e absoluta ausência
do Estado, torna-se naturalmente causa determinante da violência (dos homicídios,
roubos, seqüestros, estupros etc.).
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